"Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciencias e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de sí e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes." Marilena Chaui

"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar podem ser ensinadas a amar". Nelson Mandela

"É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do modo como ele é, se se quer transformá-lo. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade". Antonio Gramsci

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Extrema direita chega ao poder


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De lado a necessidade de controlar nossa repugnância diante do risinho sujo, debochado e pornográfico de pilantras e trapaceiros de variados calibres, há muito o que refletir sobre o afastamento provisório imposto pela extrema direita à presidente Dilma Rousseff. Ao contrário do que supõem mentes mais apressadas do campo da esquerda, não estamos diante de um fato desprovido de significação na cena política nacional. Decididamente não se trata de que “todos” seriam iguais. Já há algum tempo o MM5 identificou uma aguda disputa política conjuntural entre direita e extrema direita pela detenção das rédeas do exercício do poder governamental no país. Na direita, até dia 12/5 passado no governo, a frente capitaneada pelo PT ao lado do PCdoB. Na extrema direita, uma articulação um pouco mais ampla comandada por um ajuntamento de ocasião com o DEM, PSDB e PMDB à frente.

O porquê desta disputa tem como pano de fundo a crise por que passa o capitalismo, com quedas mais que significativas de lucros e taxas de lucro em nível mundial. Antes mesmo do início do segundo mandato da presidente Dilma, a extrema direita já percebera que a frente PT/PCdoB não tinha condições políticas de fazer frente à crise do ponto de vista burguês, ou seja, de manter os lucros em níveis compatíveis com a capacidade e a necessidade dos investimentos do capital no país. O fato é que, instalados até então em um quadro conjuntural de expansão econômica, os governos Lula e primeiro governo Dilma puderam manter as políticas compensatórias e os principais direitos conquistados historicamente pelos trabalhadores. Com o aguçamento da crise, o PT teria que aprofundar a exploração sobre os trabalhadores: revogação dos direitos trabalhistas, corte dos direitos previdenciários, extinção do 13º Salário, desmonte dos sistemas públicos de educação e saúde etc. etc. – tudo isso de modo a liberar recursos estatais para, assim, financiar aos tradicionais juros de pai pra filho os negócios da burguesia.

Mas o PT não poderia nem pode operar tais medidas na exata dimensão e urgências exigidas pela crise, já que deste modo o partido perderia inevitavelmente suas bases junto aos trabalhadores, cometendo portanto suicídio político. A burguesia percebeu tudo isso e uma conclusão se lhe impôs: o PT, há muito transformado em um partido de direita, que tão bem servira aos capitalistas já não servia mais para servir. Era preciso uma força política disposta a arrancar as vísceras dos trabalhadores, que lhes sugasses o sangue. E eis que surge a candidatura Aécio Neves – ele próprio um desqualificado filhinho de papai – à eleição presidencial de 2014 como elemento catalisador e aglutinador na formação dessa força política de extrema direita. E já no primeiro dia após o resultado da eleição se iniciam as maquinações em direção ao objetivo de derrubar Dilma/PT/PCdoB. Como ingredientes absolutamente indispensáveis à receita deste bolo protofascista, um sistema judiciário-policial herdado da ditadura e uma grande mídia composta por jornalistas os mais venais de que se tem notícia na história da comunicação social: podres, vendidos, mentirosos, covardes, manipuladores.
Nossas tarefas
Vitoriosa a empreitada da extrema direita, instala-se no Palácio do Planalto o velho manobrista Michel Temer. Golpe de estado? Não, não houve golpe de estado. Acreditamos já haver deixado claro neste espaço que a afirmação de que se preparava um golpe de estado não passava de uma alegação da direita no poder com o objetivo de angariar o apoio de forças entre a população em geral para conter o inegável, é claro, avanço da extrema direita sobre seu governo. Mais que nunca, precisamos ser rigorosos. Um golpe de estado em um estado democrático de direito somente se configura com a derrubada deste estado democrático de direito. No caso concreto, com a substituição deste estado democrático por alguma forma de estado ditatorial de direita. Se algum destes dois estados burgueses (de direito ou de exceção/ditatorial) for derrubado pelos trabalhadores estaremos então diante de uma revolução. Simples assim.

Sim, houve um golpe. Não golpe de estado, mas um golpe palaciano – a que alguns têm chamado de ‘golpe de governo’ – de troca da guarda do comitê gestor dos negócios burgueses, como diria Marx. Mas o país continua e continuará sendo uma democracia até o dia em que ocorra um golpe de estado no sentido rigoroso do conceito. Ou até que o proletariado faça sua revolução.

Mudam as condições da luta do proletariado? Sem dúvida, sem que isto contudo signifique a derrubada da democracia. O novo governo vai criminalizar mais ainda, em níveis superiores, os movimentos sindicais e do proletariado em geral. Vai espancar operários e estudantes. Vai intensificar o assassinato de jovens trabalhadores nas favelas. O novo governo, enfim, vai intensificar a repressão como condição da implantação das medidas necessárias para manter o capitalismo funcionando, dando lucros para a burguesia. Tudo isso sem deixar de ser uma democracia. Também na França, Inglaterra e Bélgica, por exemplo, o proletariado é explorado, oprimido, assassinado. E estes países são democracias sólidas, consolidadas. Aliás, seria cômico se não fosse trágico o fato grande parte – a maior parte – da esquerda no país e no mundo hoje acabar colocando, mesmo sem o dizer, os Estados Unidos e os países da Europa Ocidental como objetivo programático-estratégico de sociedade, em exercício de degradada utopia, já que insiste tal esquerda em busca de consolidar a democracia em seus países. E, horror dos horrores, tal esquerda se diz marxista.

Temos os marxistas pela frente grandes desafios. O primeiro e decisivo deles, o de não nos alinharmos a quaisquer linhas de defesa da democracia ou de busca de democracias quaisquer que sejam. A história já demonstrou à exaustão que defender a democracia, mesmo que por tática – como insistem os mais ingênuos – significa objetivamente alhear-se dos interesses e objetivos do proletariado. Significa alinhar-se a objetivos e metas burgueses e pequeno-burgueses. A história demonstrou isso à exaustão e à custa da luta e da vida dos mais valorosos combatentes pelo proletariado. Temos os marxistas que nos manter firmes em defesa de nossos princípios e objetivos, ou seja, dos objetivos e princípios da luta por uma revolução capaz de instalar um estado e uma sociedade socialistas de transição ao comunismo. Ao comunismo, que fique claro, já que ‘transição ao socialismo’ só existe nos vocabulários reformistas (gramscianismo incluído) e trotsquista. Em lugar nenhum da letra marxista.

Abre-se sem dúvida um período de aguçamento das lutas diretas de classes no país. Neste quadro, temos os comunistas que nos colocarmos ao lado e à frente do proletariado nessas duras lutas que se avizinham em defesa de suas reivindicações e de seus direitos. Vamos à luta em busca da criação de um movimento sindical verdadeiramente independente. Vamos à luta em busca da formação de uma vanguarda proletária no seio mesmo deste proletariado, acumulando forças para, em um quadro conjuntural revolucionário, em uma verdadeira conjuntura revolucionária – e não nessas ‘conjunturas revolucionárias’ que o trotsquismo jura ver em cada esquina –, possamos partir efetivamente para a destruição revolucionária do estado burguês (democrático ou não) e o erguimento de um estado proletário e uma sociedade socialista de transição à única utopia digna deste nome: o comunismo. Venceremos!

Pela independência política, ideológica e política do proletariado!
Link: http://www.mmarxista5.org/nacional/210-extrema-direita-chega-ao-poder

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Cuba: A saudável Ilha que contamina o mundo com seu exemplo

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Fonte: http://www.tercerainformacion.es/antigua/spip.php?article71890

Segundo o organismo das Nações Unidas, o sistema de saúde de Cuba tem valor de exemplo para todos os países do mundo.
O sistema de saúde cubano é mundialmente reconhecido por sua excelência e sua eficiência. Apesar de recursos extremamente limitados e o impacto dramático causado pelas sanções econômicas que impõem os Estados Unidos a mais de meio século, Cuba alcançou a universalização ao acesso a saúde a todas as categorias da população e conseguir resultados similares a das nações mais desenvolvidas.
Durante a sua recente visita a Havana, Margaret Chan, Diretora Geral da Organização Mundial de Saúde, elogiou o sistema de saúde cubano e declarou-se impressionada com as realizações neste campo. "Cuba é o único país que eu vi que tem um sistema de saúde intimamente relacionado com pesquisa e desenvolvimento em ciclo fechado. É essa a direção certa, porque a saúde humana não pode melhorar se não há inovação ", disse ela. Ela saudou "os esforços da liderança deste país para colocar a saúde como um pilar essencial do desenvolvimento". 
O sistema de saúde de Cuba é baseado na medicina preventiva e os resultados são excelentes. De acordo com Margaret Chan, o mundo deve seguir o exemplo da ilha neste campo e substituir, o modelo ineficiente e caro, por um sistema baseado em modelo curativo prevenção. "Queremos ardentemente que todos os habitantes do planeta pode ter acesso a cuidados de saúde de qualidade, como em Cuba", disse ela.
A OMS observa que a falta de cuidados médicos no mundo é de forma alguma uma fatalidade de uma falta de recursos. Traduz-se, por outro lado, a falta de vontade política por parte dos líderes para proteger as populações mais vulneráveis. A organização cita o caso da ilha caribenha como o contra-exemplo perfeito. Por isso, em Maio de 2014, Cuba presidiu a 67ª Assembléia Mundial da Saúde, em reconhecimento da excelência do seu sistema de saúde.
Com uma taxa de mortalidade infantil de 4,2 por mil, Cuba tem o melhor indicador do continente e do Terceiro Mundo, o que reflete a qualidade do seu sistema e do impacto sobre o bem-estar das crianças e mulheres grávidas. taxa de Cuba é ainda menor do que os EUA e está entre os mais baixos do mundo.
Com uma expectativa de vida de 78 anos, Cuba tem um dos melhores indicadores das Américas e do Terceiro Mundo, com um indicador semelhante das nações mais desenvolvidas. Em média, os cubanos vivem 30 anos mais do que os seus vizinhos haitianos. Em 2025, Cuba terá a maior proporção de pessoas com mais de 60 anos da América Latina.

Um sistema de saúde que serve os povos do Terceiro Mundo
Cuba também beneficia os povos do Terceiro Mundo do seu sistema de saúde. Com efeito, desde 1963, Cuba envia médicos e outros profissionais de saúde para países do Terceiro Mundo para atender os deserdados. Atualmente, cerca de 30.000 profissionais de saúde que trabalham em mais de 60 países em todo o mundo.
O principal exemplo dessa solidariedade com o despossuídos é a Operação Milagre, que lançou Fidel Castro e Hugo Chávez em 2004. Esta campanha humanitária, desenvolvido a nível continental sob o projeto de integração da Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América ( ALBA), é operar gratuitamente aos pobres latino-americanos que sofrem de catarata e outras doenças oculares.
Dentro de uma década, cerca de 3,5 milhões de pessoas recuperaram a visão graças ao internacionalismo cubano. Este programa social, criado em uma primeira vez para a Venezuela, se espalhou por todo o continente, a fim de operar 6 milhões de pessoas. Além de operações cirúrgicas, "Miracle" fornece óculos e lentes de contato para as vítimas de problemas de visão.
No total, cerca de 165 instituições cubanas participem na Operação Milagre, que tem uma rede de 49 centros de atendimento oftalmológico e 82 centros cirúrgicos em 14 países da América Latina: Bolívia, Costa Rica, Equador, Guatemala, Guiana, Haiti, Honduras, Granada , Nicarágua, Panamá, Paraguai, São Vicente e Granadinas, Venezuela e Uruguai.
A solidariedade médica cubana também se estende a África. Em 2014, LABIOFARM, empresa de produção química e biotecnologia cubana, lançou uma campanha de vacinação contra a malária na África Ocidental, em nada menos que 15 países. Segundo a OMS, o vírus que afeta principalmente crianças, que custa a vida de pelo menos 630.000 pessoas por ano, "a maioria das crianças menores de cinco anos que vivem na África." "Isso significa que 1.000 crianças morrem diariamente de malária", lembra a Organização.
Da mesma forma, Cuba forma jovens médicos de todo o mundo na Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM). Desde a sua criação em 1998, a ELAM já formou mais de 20.000 médicos em mais de 123 países. Atualmente, 11.000 jovens de mais de 120 nações estão estudando medicina em instituição cubana. De acordo com Ban Ki Moon, Secretário-Geral das Nações Unidas, a ELAM é "a escola de medicina mais avançada no mundo". Ele também elogiou os médicos cubanos que trabalham em todo o mundo e particularmente no Haiti: "Sempre chegam primeiro e são os últimos a sair, e manter-se após a crise. Cuba pode mostrar a todos seu sistema de saúde, um modelo para muitos países."
Citando o exemplo de Cuba, a Organização Mundial da Saúde enfatiza que é possível para um país do Terceiro Mundo, com recursos limitados desenvolver um sistema de saúde eficiente e fornecer todas as populações proteção social se houver a vontade política para localizar o ser humano no centro do projeto de sociedade.

* Doutor em Estudos Ibéricos e Latino-americanos da Universidade Paris Sorbonne-Paris IV, Salim Lamrani é professor na Universidade de Reunião e jornalista especializado nas relações entre Cuba e os Estados Unidos. Seu último livro é intitulado A guerra econômica contra Cuba. Uma perspectiva histórica e jurídica sobre o bloqueio EUA, New York, Monthly Review Press, 2013, com prefácio de Wayne S. Smith e prefácio de Paul Estrade.

segunda-feira, 7 de março de 2016

A perversidade do sistema capitalista. O que fazer?

 No capitalismo, como em qualquer sistema de concentração de poder, a repressão funciona “bem” para “benefício” de poucos.
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Por Pertti Simula*
Da Página do MST

Analisando somente quatro características essenciais da nossa sociedade podemos concluir:

a) A essência do capitalismo é o capital, dinheiro. Quem tem capital ganha mais por ter capital. O dinheiro e lucro é o objetivo “sagrado” que justifica os meios. Isto resulta numa especulação e exploração dos recursos naturais e humanos (trabalhadores) sem limites, causando enormes injustiças econômicas e sociais. 

b) O sistema político é de democracia representativa que significa delegar o poder político para representantes (presidente, governadores, senadores, delegados, vereadores) causando uma alienação do povo da tomada de decisões e de planejamento da sociedade. Com isto a democracia foi sequestrada e colocada a serviço do poder especulativo, econômico.

c) O trabalho é organizado de modo que quem tem capital consegue se tornar empregador e os trabalhadores são empregados. A relação entre empregador e empregado significa um conflito estrutural. O empregado trabalha numa alienação e submissão humilhante. O empregador vê o empregado como um mero recurso e despesa sem aspecto humano.

d) Na economia há uma obsessão de continuo crescimento enquanto que o meio ambiente e a natureza estão sendo destruídos com o consumismo, uso de agrotóxicos e monocultura, mineração e exploração energética. O econômico é um inimigo perigoso à natureza. Esta estrutura funciona como um poderoso formador da personalidade dos seres humanos e dos povos. Ela é uma máquina de lavagem cerebral forçando todos nós a aceitar e adaptarnos à essa estrutura sem questionamento.

Por um lado, o capitalismo, como de fato, qualquer outro sistema de concentração de poder, desperta e fomenta em todos nós as seguintes características de personalidade: alienação, competitividade, egoísmo, ganância, inveja, machismo e resignação. Além disto, o capitalismo fomenta especialmente nos indivíduos mais ricos a sensação de isolamento, mania de grandeza, cinismo e paranóia.

Por outro lado, a sociedade provoca e alimenta em nós sentimentos crônicos de inferioridade, insegurança, medo, humilhação, indignação, revolta, raiva, culpa, impotência... Mas a sociedade cultiva a sensação que justo estes sentimentos são sintomas de desequilíbrio e fraqueza, levando as pessoas a entender que não deveriam sentir assim.

Portanto, a sociedade causa sentimentos negativos e ao mesmo tempo os torna proibitivos. O sistema de poder é uma armadilha. Esta contradição interna, de não poder sentir o que está sentindo, forma um breque abafando nossa coragem, iniciativa, criatividade e força para podermos reagir, nos unir e organizar contra injustiças e desenvolver uma sociedade justa, igualitária e solidária.

Esta estrutura fomenta em nós justo aquilo que há de mais perverso resultando em doenças psíquicas e físicas, machismo, dependência de drogas e outros, exclusão social, criminalidade, extremismo religioso, terrorismo e guerras. Nos séculos XV - XVII os países europeus colonizaram e escravizaram praticamente todos os outros continentes com armas, crueldade e genocídios. Hoje a colonização é mais sutil através das empresas multinacionais.

Os países colonizados que se libertaram no século passado, hoje competem entre si para atrair os donos do capital investirem nos seus países para serem explorados em sua mão de obra e em seus recursos naturais. Antes o trabalhador era um escravo, mas pelo menos um bem do patrão. Hoje o empregado é um mero item na sua planilha de custos.

Os problemas e o sofrimento dos povos causados pelo capitalismo no mundo tem se acentuado fortemente nas últimas três décadas. As conquistas na área da segurança social têm sido sistematicamente desmontadas. Os postos de trabalho estão sendo precarizados. O jovem tem uma perspectiva sombria para seu futuro com tédio, entretenimento vazio e falta de finalidade de vida.

No capitalismo, como em qualquer sistema de concentração de poder, a repressão funciona “bem” para “benefício” de poucos. As tentativas de construir coletivos e sociedades com princípios socialistas têm tido muita dificuldade de se propagar e suceder. Um dos fatores é que todos nós estamos viciados na repressão de modo que nós a aplicamos aos outros e nós mesmos por nós mesmos. Este hábito de repressão é uma armadilha que o sistema de poder conseguiu implantar no nosso modo de sentir, impedindo até hoje a nossa libertação.

Os poderes não querem que o povo possa sentir conscientemente indignação, injustiça, revolta, coragem, amor e união. Uma reflexão sobre a doença do poder Querer usar todos os seus meios para fazer bem para os outros é um ato de amor. Já, querer ter poder para si,  é um sintoma de desequilíbrio mental, que tem muitas vezes sua origem no sentimento numa infância de falta de amor, portanto, num sentimento de falta de existência.

O poder dá uma sensação de que agora eu existo. O poder é como uma droga alienante, quanto mais poder  se consegue , mais aumenta a necessidade de alcançá-lo ainda em doses maiores causando um circulo vicioso, uma dependência. Por isso a sede de poder aumenta sem limites.

Ganhando poder o ser humano pode exigir dos outros. Exigir é um ato de repressão, limitação da liberdade do outro, e, por tanto, da responsabilidade dele, é em ultima instancia uma tentativa de limitar a consciência do outro. O poderoso acaba inevitavelmente se reprimindo a si mesmo, sendo que tudo que fazemos com o outro, fazemos dentro de nós mesmos no nosso modo de sentir e pensar (Sócrates, filosofo grego 450 a.C.).

O poderoso se sente maior e mais importante que os outros (arrogância). Ganhar poder alimenta a mania de grandeza nele. O poderoso é bajulado por outros, e isto o aliena ainda mais da realidade. O sistema tende levá-lo para corrupção e recorrer a ditatura.

É interessante como no hospital psiquiátrico os doentes se acham gente grande como Napoleão, Cristo, Deus etc. O psiquiatra, psicanalista finlandês Martti Siirala falou numa entrevista que quanto mais se sobe nas escadas de poder mais se encontra gente fora da realidade (doente). Disse Lorde John Acton, um historiador liberal inglês do século XIX: "o poder tende a corromper; o poder absoluto corrompe de maneira absoluta. Os grandes homens quase sempre são homens maus".

O que fazer?

Na questão estrutural, devemos construir uma sociedade socialista com bases na solidariedade e na igualdade entre todos e todas, deve ter uma organização do poder maximamente horizontalizada (o principio geral do MST). A democracia participativa (direta) deve ser a essência da democracia o povo votando sobre todas as decisões importantes diretamente. Ao lado disto, a democracia representativa será mantida para escolher os representantes que cuidam da implantação das decisões. Isso requer um processo longo de desenvolvimento humano e social, mas é uma condição necessária para as pessoas crescerem na consciência humana, social,
política, econômica e ecológica.

A questão psíquica da lavagem cerebral pelo capitalismo é um fato e desafio bem conhecido e comentado. Conforme o conceito capitalista o ser humano tem pela sua natureza as seguintes características: Ele é competidor querendo sempre submeter os outros (darwinismo). Ele é conquistador, sempre querendo mais poder (ganância). Ele é racional, e lutando pelos seus objetivos está fazendo bem para a sociedade em geral (“mão invisível”, Adam Smith, economista inglês, século XVII).

Já no socialismo, o ser humano tem sua base na solidariedade, igualdade, justiça social e fraternidade. O desafio é conseguir lidar com esta “bagagem” doentia da estruturação psicológica das nossas mentes pelo capitalismo, e gradativamente tornar o nosso hábito de sentir, pensar e agir mais de acordo com solidariedade, igualdade e valorização humana. Em outras palavras precisamos conscientemente e continuamente desfazer a lavagem cerebral que o capitalismo nos impôs, e criar novos hábitos de sentir, pensar, agir e conviver.

Há uma contradição total entre estes dois conceitos sobre o ser humano. Parece que temos carência de saber como lidar com esta contradição. Para isto é necessário criar um conceito novo sobre o ser humano, que por si só fomenta o sentimento socialista, quer dizer solidariedade, liberdade e igualdade.

Um conceito que funciona no sentido de incentivar o nosso modo de sentir para a responsabilidade coletiva, coragem, ética e igualdade. Devemos introduzir gradativamente no coletivo uma abordagem que coloca o foco na valorização humana e social, por exemplo, os seguintes passos:

1. Desaprenda gradativamente as rotinas repressoras de educação, motivação e gestão de recursos humanos. Isto resulta num despertar de conscientização e do sentimento de respeito e valorização mútua, portanto, num aumento da alegria e solidariedade.

2. Conscientize-se sobre a nossa total liberdade para sentir e a liberdade limitada para agir. Desenvolva aceitação e respeito pelo modo de sentir dos outros e de si mesmo. O poder de manipulação emocional através de descontentamento, humilhação ou raiva é reduzido drasticamente. O poder psicológico da repressão perde a sua força. Isto vai levar ao aumento do sentimento de liberdade e responsabilidade, portanto, alegria e união do coletivo.

3. Desenvolva o hábito de reforçar a consciência das riquezas humanas. Não faça critica ou avaliação sobre uma pessoa. Avalie o que ela faz com respeito e reforçando a consciência das riquezas dela. Desenvolva a compreensão sobre os nossos empecilhos internos. Haverá um sentimento de valorização mútua entre os membros do coletivo, o que aumenta a união, motivação e coragem.

4. Introduza a percepção de que somos todos espelhos internos uns dos outros em características humanas. Tudo que vejo no outro está em mim também, obviamente em graus e modos diferentes. Esta consciência aumenta a sensação de igualdade, reduz a critica, a classificação (“pior/melhor”), acusações e conflitos pessoais e fomenta cooperação e o desenvolvimento humano pela autoconsciência.

5. Conscientize-se de que tudo o que eu faço ao outro, eu faço dentro de mim, a mim mesmo. Assim, debochar, humilhar, reprimir, explorar e agredir perde “a graça” na medida em que o coletivo percebe que o agressor está sendo a sua primeira e principal vitima. Isto aumenta o sentimento de segurança, cooperação e fraternidade.

6. Conscientize-se de que injustiça e maldade são curados apenas com justiça e amor. Não dê poder para o problema, não coloque o foco no erro, fortalece o bem. Isto vai reduzindo a vontade de julgar, reprimir, brigar e agredir aumentando o sentimento do amor e respeito mútuo.

7. Desenvolva uma estrutura social em que todos participam cada vez mais na discussão e tomada de decisões sobre assuntos importantes para promover a responsabilidade coletiva e a solidariedade, assim as ações destrutivas são prevenidas e impedidas pela responsabilidade coletiva. A participação aumenta a responsabilidade coletiva, a solidariedade e igualdade.

Este é um processo de transformação do modo de sentir, pensar e agir. A candidata para presidência dos Estados Unidos, Hillary Clinton revelou a condição de se ter poder: “Não estou interessada em ideais que parecem boas idéias no papel, mas que nunca irão funcionar no mundo real.” (Folha de São Paulo 22.01.2016) A posição dela é manter tudo como está, assim não vamos ter qualquer progresso real nas dimensões humana, social e ecológica.

Mais do que nunca a assertiva de Che Guevarra é necessária: “Vamos ser realistas e tentar o impossível.”

* Pertti Simula é psicanalista e Mestre em Ciências

A abordagem usada no texto, chamada de método conscientia, é o resultado de um trabalho de 30 anos unindo observações práticas das dimensões do coletivo, cooperação, campo terapêutico e das relações humanas. O desenvolvimento da metodologia está sendo realizado em grande parte em cooperativas, escolas e institutos de formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra do Brasil – MST, além da participação de educadores de escolas na Finlândia e Suécia.
Fonte:http://www.mst.org.br/2016/02/15/o-nosso-sistema-de-poder-e-perverso-o-que-fazer.html

sábado, 7 de novembro de 2015

Norte e Nordeste concentram maior parte da população que não se alimenta direito e que passa fome






Há 64 anos, o geógrafo Josué de Castro lançava sua obra mais importante, A Geografia da Fome, na qual fazia uma análise do problema da fome no país e sua relação com fatores econômicos, como a posse da terra. Hoje, 30 anos depois da morte do geógrafo, pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que a situação melhorou, mas que as regiões Norte e Nordeste ainda concentram a população que não se alimenta direito e até passa fome.
Os dados, divulgados hoje (25), são do suplemento Segurança Alimentar, elaborado com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), de 2009. Segundo o documento, em todos os estados do Norte e do Nordeste, os domicílios estavam abaixo da média nacional de 69,8% em relação à alimentação adequada. No Norte, o percentual registrado foi de 40,3% e no Nordeste, de 46,1% dos domicílios. No Sul e no Sudeste, os percentuais foram de 18% e 23,3%.
No Norte e no Nordeste, a fome foi constatada em 9,2% e em 9,3% das residências, respectivamente, sendo que, no Maranhão e no Piauí, nem metade dos domicílios estava dentro dos parâmetros de segurança alimentar. No Sul e no Sudeste, o percentual registrado foi inferior a 3%. Dessas regiões, os moradores do Rio Grande do Sul e do Paraná são os que se alimentam melhor no país.
À época de sua pesquisa, Josué de Castro constatou que a falta de determinados nutrientes e a fome estavam ligadas às condições naturais, à concentração de terra e à renda das famílias. O IBGE também mostra que quanto menor o rendimento, maior a situação de insegurança alimentar moderada (falta de alimento nos três meses anteriores a pesquisa) ou fome.
Dos 25,4 milhões de pessoas que passavam por privação de alimentos ou não comiam quantidades adequadas de comida, em 2009, 33,2% tinham renda mensal familiar de até um quarto do salário mínimo. Com renda de até meio salário mínimo, 55% também estavam em situação de insegurança.
"As famílias que têm dificuldade de acessar a alimentação e que precisam são famílias com dificuldade de renda, são os pobres ", corroborou a presidenta da Ação Brasileira pela Nutrição e Direitos Humanos (Abrandh), Marília Leão.
"Apesar de sabermos que, em termos gerais, há um crescimento da renda familiar, sabemos que no Norte e Nordeste as pessoas ainda têm muita dificuldade e muitas vivem em situação de pobreza ou pobreza extrema. É um problema que vem de muito tempo", completou Marília, que também integra o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).
Fonte: Agência Brasil
Fonte: http://www.amambainoticias.com.br/brasil/norte-e-nordeste-concentram-maior-parte-da-populacao-que-nao-se-alimenta-direito-e-que-passa-fome

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Hasta siempre, comandante Che Guevara!

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Para os militantes revolucionários e socialistas de todo o mundo, o dia 8 de outubro é uma data que, embora trágica, não poderá jamais passar em branco ou ser esquecida. Neste dia, em 1967, morria Ernesto Che Guevara, assassinado pelo Exército da Bolívia, onde chegara em março daquela ano, com um grupo de 44 guerrilheiros, para organizar a luta armada e revolucionária.

Um dos principais líderes da revolução Cubana, junto com Fidel Castro, Raul e Camilo Cienfuegos, Che fora ministro da indústria e chefe do Banco Central, entre outras funções que exerceu no governo revolucionário de Cuba. Sua morte deixou uma lacuna irreparável na luta revolucionária e anti-capitalista em todo o mundo e, especialmente, na América Latina e África.

A influência de Che, no entanto, vai muito além da extraordinária figura humana que ele foi, consolidando-se nas últimas décadas como referência de luta e dedicação para milhões de revolucionários socialistas em todo o mundo. Exemplo ímpar de dedicação à causa proletária. Referência que, inclusive, resiste a todas as tentativas torpes e manipuladoras, por parte da indústria cultural, de se apropriar de sua simbologia com o objetivo inconfessável de esvaziá-la, transformando-a em mero produto de consumo e ‘badalação’, como se vê na profusão de bottons, camisetas, chaveiros e banners com a figura de Che expostos até mesmo em shopping centers.

Ter Che Guevara como referência é ter a certeza, fundamentada na história e no marxismo como ferramenta teórica, de que o verdadeiro reino da liberdade só começará a ser efetivamente construído com a destruição revolucionária do estado burguês e sua substituição por um estado proletário, instaurando-se a sociedade socialista como transição ao comunismo, à sociedade sem classes. Para isto, é decisivo que não se façam quaisquer concessões ao reformismo e à conciliação de classes. À fraseologia barata e enganosa dos que, no fundo, querem tão somente se utilizar das bandeiras socialistas para trair o ideal revolucionário e se acomodar à sociedade burguesa.

Hasta siempre, comandante Che Guevara! Venceremos!!

Fonte:http://www.mmarxista5.org/internacional/198-hasta-siempre-comandante-che-guevara

sábado, 26 de setembro de 2015

Cuba é primeira na taxa de alfabetização entre 80 países


Apesar do criminoso bloqueio dos EUA há mais de cinquenta anos, e também de alguns percalços políticos do regime castrista, a pequena Ilha do mar do Caribe sempre é destaque positivo quando o tema é Educação. Segundos dados do Banco Mundial, Cuba tem a melhor taxa de alfabetização entre oitenta países pesquisados. La, quase a totalidade das pessoas é alfabetizada, ou seja, 99,83% da população.
Na prática, isto é resultado de investimentos públicos na área. Como se sabe, em Cuba a Educação é controlada como algo prioritário pelo Estado, o que tem gerado ótimos resultados no setor. Segundo também o próprio Banco Mundial, Cuba é o único país da América Latina e do Caribe que dispõe de um sistema educativo de alta qualidade.
Embora bastante criticada (mais por conta de preconceito e ignorância) como um país "atrasado", Cuba nesse quesito alfabetização bate até países do dito primeiro mundo europeu, como Itália e Portugal, que ocupam a 14ª e 36ª posição, respectivamente, nesse mesmo ranking de educação. Outro fator interessante, é que dos oitenta países pesquisados, apenas a Ilha é Socialista. Todos os demais se guiam pelos milagrosos ideais liberais do capitalismo.
O contigente pesquisado é de habitantes a partir de quinze anos de idade. Os dados são de 2011 e o Brasil não é citado. Mas, segundo ainda o Banco Mundial, em 2009 o Brasil aparece na 16ª posição.


Fonte: http://www.deverdeclasse.com/news/cuba-e-primeira-na-taxa-de-alfabetizacao-entre-80-paises-norteamericano/

domingo, 26 de julho de 2015

Mandela: uma face humana para o capitalismo

Na parte final de sua vida Nelson Mandela foi amplamente considerado um “santo” moderno. Aparecia como um modelo de humildade, integridade e honestidade, demonstrando uma incrível capacidade de perdoar.
Segundo um boletim recente da Oxfam, a África do Sul é “o país mais desigual do planeta e significativamente mais desigual do que no fim do “apartheid”. O Congresso Nacional Africano (CNA) está há quase 20 anos governando uma sociedade em que as privações da maioria negra continuam aumentando. Ainda assim, apesar de fazer parte do CNA desde os anos 40, Mandela sempre foi visto na África e no resto do mundo como alguém diferente de outros líderes.

Um cristão verdadeiro?

Sua autobiografia de 1994, “Longa Caminhada Até a Liberdade”, é um valioso guia sobre a vida e ideias de Mandela. Mesmo que com um viés parcial, ela demonstra as preocupações e prioridades do autor (as citações em itálico no decorrer do texto foram retiradas do livro)Por exemplo, depois de 27 anos na prisão, ao ser solto em fevereiro de 1990, Mandela não demonstrava qualquer sinal de rancor contra seus algozes: 
  • “Na prisão, a raiva que sentia dos brancos diminuiu, mas minha raiva contra o sistema aumentou. Queria que a África do Sul visse que eu amava até mesmo meus inimigos, ao mesmo tempo que odiava o sistema que nos jogava uns contra os outros”. Se isso soa como o ditado cristão “ame o pecador, odeie o pecado”, é em parte por ser isso mesmo. Relembra que ao receber a visita de dois editores do Washington Times na prisão “disse a eles que era e sempre tinha sido um cristão”. 
Fica claro também como este traço de sua personalidade foi útil ao capitalismo sul-africano. Após Mandela deixar a prisão, uma das principais tarefas do Congresso Nacional Africano foi garantir potenciais investidores que um futuro governo do partido não ameaçaria seus interesses. Na “Mensagem de Mandela ao Big Business” (19/06/1990), está dito por ele em diversas ocasiões:“o setor privado, tanto doméstico como internacional, trará uma contribuição vital para a reconstrução da África do Sul após o apartheid... Somos sensíveis ao fato de que para investir numa África do Sul pós-apartheid, vocês terão que ter confiança na segurança de seus investimentos, um retorno adequado de seu capital e um clima geral de paz e estabilidade”. Mandela pode ter falado como um cristão, mas um cristão que compreendia as necessidades dos negócios.

Um nacionalista consistente

Mandela era certamente consistente, capaz de ver no presente a continuidade do passado. Quando, por exemplo, o CNA se sentou pela primeira vez para conversar oficialmente com o governo em maio de 1990, o futuro presidente disse ter lhes dado uma lição de história. “Expliquei a nossos interlocutores que desde sua fundação em 1912 o CNA sempre procurou negociar com o governo”.
Mandela frequentemente se referia à “Carta da Liberdade” do CNA, adotada em 1955:“Em junho de 1956, no boletim mensal Liberation, eu apontei que a carta endossava a iniciativa privada e permitiria que o capitalismo florescesse entre os africanos pela primeira vez”. Em 1988, durante negociações secretas com o governo, ele se referiu ao mesmo artigo, dizendo:“a Carta da Liberdade não era um guia para o socialismo, mas para o capitalismo em estilo africano. Disse a eles que não havia mudado de ideia desde então”.
Quando Mandela foi visitado em 1986 por uma comissão, disse-lhes “que era um nacionalista sul-africano, não um comunista e que existem nacionalistas de todas as cores e formatos”. Este nacionalismo era intransigente. Quando se aproximavam as eleições de 1994 e ele se encontrou com o presidente F.W. de Klerk num debate televisivo, afirmou: “senti que havia sido áspero demais com o homem que viria a ser meu parceiro num governo de unidade nacional. Resumindo, disse que ‘as trocas entre o senhor de Klerk e eu não deveriam obscurecer um fato importante. Considero que somos um exemplo brilhante para o mundo todo de pessoas vindas de grupos raciais diferentes que têm em comum lealdade e amor por seu país”
A partir da metade da década de 1970, Mandela recebeu visitas do ministro das prisões: “no decorrer dos anos o governo havia mandado ‘pegadinhas’, começando com a tentativa do ministro Kruger de me convencer a ir morar no Transkei. Não eram esforços para negociar, mas tentativas de me deixar isolado da minha organização. Em várias outras ocasiões Kruger me disse: ‘Mandela, podemos trabalhar com você, mas não com seus colegas’”.
O governo sul-africano reconhecia que havia algo diferente em sua personalidade que finalmente possibilitaria algum tipo de negociação. E, em dezembro de 1989, ao encontrar de Klerk pela primeira vez, Mandela pôde dizer que “o senhor de Klerk parecia representar uma real mudança em relação aos antigos políticos do Partido Nacional. Ele era um homem com quem nós poderíamos fazer negócio”.
No final, este respeito mútuo fez com que o Prêmio Nobel da Paz de 1993 fosse dado conjuntamente a Mandela e de Klerk,por “seu trabalho pelo fim pacífico do regime de Apartheid e por construírem as fundações de uma nova África do Sul democrática”.
Este objetivo a longo prazo não foi uma preferência pessoal de Mandela, mas algo que correspondia às necessidades do capitalismo. Após o massacre de Sharpeville em 1960, como conta a biografia de Mandela,“A bolsa de valores de Johannesburgo desabou e o capital começou a se retirar do país”.
O fim do Apartheid deu início a um período de crescimento do investimento estrangeiro na África do Sul. A democracia, no entanto, não beneficiou a maioria da população. Na década de 50, Mandela disse que “o objetivo secreto do governo era criar uma classe média sul-africana para diminuir o apelo do CNA na luta de libertação”.
Na prática, a “libertação” e um governo do CNA aumentaram pouco a classe média africana. Ela também acarretou repressão, remilitarização da polícia, proibição de protestos e ataques aos trabalhadores como, por exemplo, na greve dos mineiros de Marikana, em que 44 operários foram mortos e dezenas ficaram seriamente feridos.
Mandela foi capaz de afirmar que “todos os homens, até mesmo de sangue mais frio, têm um núcleo de decência e se seus corações são tocados, eles são capazes de mudar”.  Pode ser verdade em relação a indivíduos, mas não em relação ao capitalismo, que não tem um “núcleo de decência” e não pode ser mudado. As caras do governo do CNA são diferentes de seus predecessores brancos, mas a exploração e a repressão continuam.

Meios para um fim

O CNA com sua luta de “libertação” fez uso tanto da violência como da não-violência em suas campanhas. Ao perceber que táticas não-violentas não estavam funcionando, o partido criou uma ala militar, na qual Mandela exerceu um papel central: “Consideramos quatro tipos de atividades violentas: sabotagem, guerrilha, terrorismo e revolução aberta”. Esperavam que a sabotagem “traria o governo para a mesa de negociação”, mas instruções precisas foram dadas para que “vidas fossem poupadas. Mas se a sabotagem não desse os resultados que queríamos, estávamos preparados para seguir ao próximo estágio: guerrilha e terrorismo”.
Então, em 16 de dezembro de 1961, quando “bombas caseiras foram detonadas em centrais elétricas e escritórios do governo em Johanesburgo, Port Elizabeth e Durban, isso não significou que os objetivos do CNA haviam mudado – a democracia ainda era a meta.
Depois de maio de 1983, quando o CNA explodiu seu primeiro carro bomba, matando 19 pessoas e ferindo mais de 200, Mandela disse que “a matança de civis foi um trágico acidente e sinto profundo horror em relação às mortes. Mas por mais incomodado que estivesse por causa das vítimas, sabia que acidentes do tipo eram as consequências inevitáveis da decisão de embarcar na luta militar”. Hoje, utiliza-se para tais “acidentes” o eufemismo mais moderno de “danos colaterais”.

Homem e Mito

Na década de 1950, a esposa de Mandela se tornou Testemunha de Jeová. Ele disse que apesar de “considerar alguns aspectos da (publicação) A Sentinela interessantes e valorosos, eu não compartilhava sua devoção. Havia um elemento obsessivo que me desestimulava”. Nas discussões do casal, relembra:“eu explicava a ela pacientemente que a política não era uma distração e sim o trabalho da minha vida, uma parte essencial e fundamental do meu ser”.
Tais diferenças os levaram a uma “batalha pelas mentes e corações dos nossos filhos. Ela queria que eles fossem religiosos e eu pensava que eles deveriam ser politizados”. E a que política eles foram expostos? 
  • “Eu tinha imagens de Roosevelt, Churchill, Stálin, Gandhi e da tomada do Palácio de Inverno em São Petersburgo em 1917 nas paredes da casa. Expliquei aos meninos quem era cada um daqueles homens e o que eles defendiam. Eles sabiam que os líderes brancos da África do Sul defendiam algo totalmente diferente”. 
Há um contraste interessante aqui. De um lado, quatro lideranças da classe dominante capitalista (não tão diferentes assim da burguesia sul-africana) e, do outro, um dos momentos mais importantes da história da classe trabalhadora.
Mandela disse ter tido pouco tempo para estudar Marx, Engels ou Lenin, mas ele“concordava com o mandamento básico de Marx, que era a simplicidade e generosidade da Regra de Ouro: de cada um conforme suas habilidades, a cada um conforme suas necessidades”.
Por mais que ele “concordasse com o mandamento”, a história do CNA demonstra um século a serviço do capitalismo sul-africano. Seja em protestos ou guerrilha, os objetivos eram nacionalistas ou apenas uma válvula de escape, já que ele acredita que“o povo deve poder dar vazão à sua raiva e frustração”. No governo, as fases mudaram de Mandela a Mbeki a Motlanthe e agora Zuma, mas não houve mudanças na vida da maioria. A única diferença entre os presidentes é que Mandela tinha uma imagem melhor.
Mandela percebia bem seu próprio mito. Ele fazia questão de dizer que não era um“santo” nem um “profeta” nem um “messias” num mundo em que a maioria dos políticos se devota à autopromoção e enriquecimento.
Esta modéstia era uma das características mais atraentes de Mandela. Ela poderia ser explicada por suas origens na religião Metodista. Em seus 27 anos preso, ele perdeu o culto dominical apenas uma vez, “Apesar de ser metodista, eu frequentava as cerimônias de cada uma das outras religiões”.
Independente das origens da modéstia de Mandela ou de sua aparente decência, está claro que ele será a face da campanha eleitoral do CNA em 2014. E além da África do Sul, o mito de Mandela continuará sendo um dos pilares da ideologia democrática moderna.
Em sua carreira como advogado, Mandela foi, como ele próprio relata,“de uma visão idealista da lei como uma espada da justiça à percepção da lei como uma arma usada pela classe dominante para moldar a sociedade a seu favor”.
Ele não faz uma crítica similar da democracia. Em seu depoimento de 1964 ao tribunal ele expressou sua “admiração” pela democracia: “Tenho grande respeito pelas instituições políticas britânicas e pelo sistema de justiça do país. Considero o parlamento britânico a instituição mais democrática do mundo e sempre fico admirado com a independência e a imparcialidade do poder judiciário. O congresso americano, a doutrina do país de separação dos poderes, assim como a independência de seu judiciário também me causam sentimentos semelhantes”.
Seja qual for seu caráter como pessoa, o trabalho de sua vida foi a serviço da democracia capitalista. Já o capitalismo, continua utilizando as melhores qualidades de Mandela para o pior fim possível: a preservação de sua ordem social decadente.
Fonte: anpt.internationalism.org/ICConline/2014/Mdela%3A_uma_face_humana_para_o_capitalismo

domingo, 30 de novembro de 2014

Por que a extrema-direita brasileira odeia tanto a Cuba?



É de se perguntar o porquê de tantos ataques a uma pequena ilha caribenha, nação onde vivem pouco mais de 11 milhões de pessoas (menor que a população do estado da Bahia) e cujo o Produto Interno Bruto – PIB representava US$ 72 bilhões em 2012 (o orçamento apenas da prefeitura de São Paulo é de US$ 25 bilhões) nas eleições presidenciais brasileiras.
A estratégia durante toda a campanha foi de jogar sobre o governo de Dilma a pecha de estar utilizando dinheiro público para financiar o governo cubano, através da construção do Porto de Mariel e da contratação de médicos para o programa Mais Médicos.  Via de regra, a candidatura de Dilma aceitava a crítica e não desmascarou o motivo de tanto ódio a Cuba por parte da extrema-direita.
A verdade é que o Porto de Mariel, a 40 km de Havana, é uma obra a mais financiada pelo BNDES. Outras obras similares foram financiadas em outros países como Equador e Angola. Longe de ajudar o socialismo, o objetivo dessa estratégia é fortalecer as empresas capitalistas nacionais, criando um mercado com os países de sul que possa suplantar a crise vivida pelos EUA e a União Europeia. O grande beneficiado com o porto de Mariel é mesmo a Oderbrecht, já que o financiamento do BNDES será pago pelo governo cubano.
No caso do Mais Médicos, programa paliativo para levar médicos às cidades do interior, a extrema-direita faz uso de duas mentiras. Primeiro, esconde que a vinda dos médicos estrangeiros só aconteceu após a recusa dos médicos brasileiros em trabalhar nos lugares ermos. A honrada classe médica chegou a afirmar que receber R$ 10 mil de salário é escravidão. Segundo, procuram explorar o fato de que grande parte dos salários dos doutores de Cuba serve para pagar seus estudos, ajudar a família e desenvolver o país deles. Escondem que o trabalho do médico fora das fronteiras nacionais é um ato voluntário, humanitário e social, como heroicamente fizeram os médicos cubanos no Haiti e, agora, nos países africanos atingidos pelo Ebola.
Ao caluniar Cuba, a extrema-direita procura colocar toda a esquerda brasileira em defensiva. Ao não defender as conquistas sociais cubanas, a esquerda perde em legitimidade e protagonismo para defender a justiça social no Brasil.
Por mais diferenças que se possa ter com o modelo de democracia ou de socialismo aplicado por Cuba, não se pode perder de vista que uma sociedade que priorize a justiça social ao invés do lucro é sempre melhor que qualquer regime capitalista. Quando nos calamos, parte da classe trabalhadora passa a repetir e acreditar nesses chavões repetidos a exaustão pelos representantes dos capitalistas, tornando mais difícil a luta por justiça social no Brasil.
Afinal, por que tanto ódio a uma pequena ilha?
Cuba é o exemplo de que é possível construir um caminho diferente. Mesmo cercada, embargada e perseguida pelo imperialismo nos terrenos econômico e político, o povo cubano permanece ostentando os melhores índices de desenvolvimento social, reconhecidos pelos organismos independentes da ONU. Já pensaram se se tratasse de um país rico em petróleo, fontes de energia naturais, com amplas florestas e fontes de minérios, ou seja, um país que tivesse condições geográficas e naturais de desenvolver a indústria e a técnica em níveis superiores?
Cuba é a prova viva de que a igualdade social é mais eficaz que o acúmulo de riqueza. Que a solidariedade é mais eficaz que o individualismo. Que a educação e a justiça social são as armas mais eficazes contra o crime e a violência. Que uma sociedade pode viver sem altos índices de consumos de drogas lícitas e ilícitas e, também, sem encarcerar sua juventude e seus pobres. Em resumo, Cuba é a prova viva que todo o discurso da extrema-direita é mentiroso e por isso precisa ser derrotada.
Não podemos esperar que o governo do PT defenda as ideias de Cuba pois seu interesse para com a ilha se resume a esfera dos negócios. É preciso devolver todo o ataque sofrido pelo povo cubano organizando o povo para lutar pelo programa da classe trabalhadora brasileira.
Jorge Batista, São Paulo.
http://averdade.org.br/2014/10/por-que-extrema-direita-brasileira-odeia-tanto-cuba/
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