"Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciencias e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de sí e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes." Marilena Chaui

"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender e, se podem aprender a odiar podem ser ensinadas a amar". Nelson Mandela

"É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do modo como ele é, se se quer transformá-lo. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade". Antonio Gramsci

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Há Democracia?

Cidadania em xeque

Se você é capaz de tremer de indignação a
cada vez que se comete uma injustiça
no mundo, então somos companheiros.
Ernesto Che Guevara

Várias vezes ouço a seguinte pergunta quando estou dando aula: “você está apaixonada?” A resposta é sempre a mesma: “eu sou apaixonada”. Sou uma mulher de muitas paixões, mas duas são especiais: a maternidade e o magistério. Eu não sou simplesmente Yonara, sou a mãe do Martim e a professora dos meus alunos.

Era daquelas que dizia que não queria ser professora; entrei na FFP-UERJ para fazer Letras, não para ser professora de Português e Literatura, mas no primeiro e no segundo semestres eu sabia que não havia jeito: nascia uma educadora. Não tinha como assistir às aulas de Maria Tereza e não querer mudar o mundo. Não tinha como assistir às aulas de Maria Alice e não me apaixonar por literatura.

O magistério é uma profissão muito difícil em um país que educar nunca foi prioridade. Sou há 13 anos professora do estado, onde vivemos uma educação de fachada. O governo criou um cenário para que a população acredite que aparelhos de ar-condicionado e computadores vão melhorar o contexto. Enquanto paga o aluguel do cenário, alunos sofrem com uma merenda sem qualidade e professores com salários ridículos. Outro dia, enquanto eu dava aula, parte da janela caiu na cabeça de uma aluna, levei a janela para fora, quando eu voltava, um aluno trazia a outra parte que acabara de cair. Por sorte, não houve feridos. Mas enquanto entrávamos e saíamos da sala ficamos trancados porque a porta só tem maçaneta de um lado. Quando isso acontece é preciso que alguém ouça que estamos trancados, pegue a maçaneta de outra porta e nos liberte.

O mais triste dessa situação é que muitos perderam a capacidade de indignar-se com o que acontece na educação do estado. É normal alunos saírem cedo da escola porque não há professores de algumas disciplinas É normal no refeitório ter ovo cozido na segunda, ovo frito na terça, ovo mexido na quarta, omelete na quinta... É normal o filtro do ar-condicionado estar sujo. É normal responsabilizar o professor se os alunos não têm bom desempenho nas provas nacionais. É normal professor ter 3, 4 ou 5 empregos para conseguir pagar suas contas. É normal que adoeçam pelo excesso de trabalho. É normal que milhares abandonem o magistério estadual todos os anos.

No início desse mês, em assembleia, muitos professores optaram pela greve como maneira de negociar com o governo do estado e gritar: NÃO É NORMAL!!! Quando conversei sobre esse assunto com a minha turma do 3º. ano, no C. E. Adino Xavier, meus alunos decidiram fazer uma passeata para mostrar à cidade por que os professores estão em greve. Assim o fizeram, tive o privilégio de estar com eles e – junto com o professor Fernando Cid – gritamos para que todos ouvissem as nossas indignações. Eu me enchi de orgulho quando percebi que os alunos não aceitam compactuar com o status quo.

Nestes anos de magistério, eu coordenei projetos direcionados à cidadania e ao voluntariado. Ganhei prêmios em nome da escola. No ano passado, uma equipe de pesquisadores do CNPq considerou estes projetos como exemplo de prática em educação moral no Brasil. É claro que os prêmios e o reconhecimento são importantes para mim, tanto em nível pessoal quanto profissional, no entanto nada se compara a ver meus alunos segurando faixas e exigindo para a educação um tratamento digno.

Quando retornamos à escola, os alunos perguntaram: “e agora, professora, nós vamos voltar amanhã à sala de aula e fingir que nada aconteceu?” A lição de cidadania havia sido dada pelos alunos. A partir daquele momento, eles não seriam mais os mesmos, tinham compreendido que a mudança começa dentro do indivíduo para que chegue ao coletivo.

As consequências do protesto, infelizmente, começaram dentro da própria escola; no dia seguinte, após conversar com os alunos e criticá-los pelo evento; a direção avisou que o colégio tinha sido denunciado ao MINISTÉRIO PÚBLICO. E repetiu o comunicado, no dia posterior, ao reunir os professores do 1º. turno. A seguir, eu soube que há uma denúncia contra mim na 74ª. DP.

É grave haver uma denúncia por eu ter participado da passeata com os alunos (não importa quem tenha feito a denúncia, a pessoa terá de responder um processo por calúnia e difamação, pois nada de ilegal ocorreu durante o protesto, visto que fomos acompanhados por duas viaturas da polícia), ainda considero irredimível o fato de criticar-se uma passeata em prol da educação. Nada pode ser mais democrático que a atitude espontânea dos alunos em exigirem seus direitos.

Não vale argumentar que muitos alunos são menores de idade, eles podem votar, mas não podem protestar? Também não é admissível dizer que havia crianças no protesto; as fotos, os bombeiros e os policiais são testemunhas que somente os alunos do ensino médio participaram da passeata.

Não fiquei calada diante das calúnias, a minha indignação ganhou texto, fiz questão de encaminhar o acontecido para as pessoas que conheço, para o sindicato, para alunos e ex-alunos, para professores. Estes reencaminham para seus conhecidos. Desde então venho recebendo manifestações de apoio de diversos segmentos da sociedade. Ou seja, ainda há quem se indigne.

O SEPE saiu em minha defesa e foi à escola cobrar uma postura da direção, ouviu que sou uma profissional respeitada e que o colégio não sabe sobre a denúncia.

Não aceito o papel de vítima ou de vilã nessa história, sou uma educadora apaixonada, não preciso dizer quem sou, meus alunos o fazem por mim. A revolução eu faço acontecer todos os dias na sala de aula. Só que, às vezes, a minha sala fica numa exposição de artes, num cinema, dentro de uma creche, e no dia 14 de junho, a lição aconteceu nas ruas da cidade.


Yonara Costa
Fonte: http://blogpodegiz.blogspot.com/2011/07/cidadania-em-xeque.html#comments
Comentário: Por esses e outros motivos que o "cargo" de diretor é de confiança. Atualmente a verdadeira função dos diretores é a de vigiar e punir, viraram os capatazes da educação, instrumentos de coerção de toda e qualquer manifestação contra a ideologia implantada pelo Estado.
ELEIÇÕES PARA DIREÇÃO JÁ!!!

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